domingo, 13 de maio de 2012

A hora e a vez da nova classe B


Com ascensão, grupo social supera classe C e puxa os gastos dos brasileiros este ano

AGÊNCIA O GLOBO / GABRIEL DE PAIVA

RIO - A classe C ficou para trás. Em 2012, é a vez de a classe B — com renda média familiar variando de R$ 3.175 a R$ 6.410 — puxar os gastos dos brasileiros. Nas projeções do estudo IPC Maps, que será divulgado amanhã, o consumo das famílias deve atingir R$ 2,7 trilhões neste ano, aumento de 3,6% sobre as cifras de 2011. À frente, está a classe B que amplia seus desembolsos em 8,46% (crescimento real), para R$ 1,2 trilhão. Já a classe C (de R$ 1.310 a R$ 1.950) faz o movimento contrário: os gastos, de R$ 681,4 bilhões, recuam 10,63%. Erra quem pensa que o cenário é negativo. Para especialistas, é uma segunda onda de ascensão social, com mais gente engordando, dessa vez, a classe B.
— Em 2012, a classe B passa a responder por 50% do consumo (urbano) do país, um recorde de participação no total dos gastos. Mas essa retração dos desembolsos da classe C não é ruim. Ao contrário. O crescimento da classe B se explica pelo fenômeno da migração social, que numa primeira onda beneficiou a classe C, com migração dos domicílios das classes D e E. Desde 2010, o Brasil experimenta uma segunda onda migratória, com a ascensão dos domicílios da classe C para a classe B — disse Marcos Pazzini, responsável pelo estudo e diretor da IPC Marketing Editora.
O apetite da classe B também se nota nos últimos dez anos. De 2002 para cá, os gastos dessa faixa da população mais que dobraram, crescendo 147,29%. Saem de uma participação de 34,75% para 50% do consumo. Em quase metade dos domicílios, a classe C, por sua vez, gastou 12,59% mais no período, chegando em 2012 a deter 26,7% das despesas.
Por outro lado, os extremos da pirâmide social encolheram. Presente em menos de 5% dos lares, a classe A deve gastar apenas 0,31% a mais do que em 2011. Nos últimos dez anos, diminuiu os desembolsos em 67,65%. Já a retração dos gastos das classes D e E — que em 2002 eram 47,1% das famílias e agora são 14,9% — deve ser de 16,63% em 2012.
— A quantidade de domicílios e o valor de potencial de consumo das classes D e E vêm caindo ao longo dos anos. E isso é um cenário positivo, pois mostra que a população está em uma melhor situação. Mercado de trabalho aquecido, crédito e aumento de renda, além do avanço da escolaridade, ajudam a explicar esses movimentos recentes.
Com mais renda, as famílias alteraram os hábitos ao longo dos anos. E os gastos com alimentação refletem um pouco as mudanças. Em 2002, 18,5% dos gastos iam para a despensa — fatia que cai para 10,4% em 2012. Os gastos com veículo passam de 3,1% para 5%. E o desembolso com transporte urbano cai de 5,3% para 2,4%.
— A velha classe média foi espremida pela ascensão social. E a classe C incorporou muitas famílias da D. Ou seja: as classe sociais mudaram suas demandas, seus valores, seus desejos de consumo. Há alguns anos, geladeira cheia, churrasco, almoço em família eram símbolo de status para a classe C. Agora, com mais renda, as famílias querem mais do que comer — disse Márcio Rolla, professor da ESPM. — Com mais renda concentrada no meio da pirâmide de gastos, o Brasil pode crescer mais. Assim, políticas são feitas pensando no meio desse bolo e não em suas extremidades.

Crise não ameaça a nova estrutura econômica

Poderia uma crise internacional — que mexe, aqui no Brasil, com inflação, produção industrial, câmbio e trabalho, por exemplo — reverter o cenário? Marcelo Neri, chefe do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas, descarta qualquer retrocesso nas conquistas.
— É um salto sustentável. A despeito das turbulências, o Brasil cresce. Menos, mas cresce. E a desigualdade continua caindo. Em três anos, a classe C vai receber mais 12 milhões de pessoas, crescendo 11%. Já a AB crescerá 29%, com mais 7,7 milhões. É crescimento sobre o crescimento. Até 2014, três quartos da população estarão nas classes ABC — disse Neri, acrescentando, contudo, que no Nordeste a revolução da classe C ainda acontecerá. — A Bahia será o Brasil de 2009. Esse atraso em se atingir a média nacional cai de 11 anos para seis.
Mas a crise lá fora atrapalha. Tanto que o consumo das famílias — ainda o motor da economia — deve crescer 3,6%, abaixo da média dos últimos anos.
— Sem investimento, quem segura o PIB é o consumo. Há uma desaceleração por causa do esgotamento da capacidade do consumidor de assumir novas dívidas e da inadimplência. Não se pode ignorar que o dólar poderá repercutir nos preços. Mas tudo é relativo. No cenário internacional, estamos bem na foto ao comparar nossa economia com Europa e EUA. Porém, ficamos para trás na comparação com os emergentes — disse Carlos Thadeu de Freitas, economista-chefe da Confederação Nacional do Comércio (CNC).
O advogado Leonardo Fernandes ajuda a sustentar esse consumo. Recentemente, comprou um carro novo, financiando metade do valor em 48 meses. Nesse ano, contudo, não planeja mais aquisições desse porte.
— A vida está muito cara. A hora é de segurar os gastos.

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